A colher que desaparece by Sam Kean

A colher que desaparece by Sam Kean

Author:Sam Kean
Format: epub
Published: 2013-05-17T04:00:00+00:00


PARTE IV

Os elementos da personalidade humana

12. Elementos políticos

O CÉREBRO E A MENTE HUMANOS são as estruturas mais complexas que conhecemos. Elas sobrecarregam as pessoas com desejos intensos, complexos e às vezes contraditórios, e até mesmo algo tão austero e cientificamente puro como a tabela periódica reflete esses desejos. Afinal, foram os humanos falíveis que a criaram. Mais do que isso, é na tabela que o conceitual se mistura com a sujeira, onde nossa aspiração de conhecer o universo – a mais nobre das faculdades humanas – precisa interagir com a matéria concreta que compõe o nosso mundo, a matéria-prima de nossos vícios e limitações. A tabela periódica incorpora nossos fracassos e frustrações em todos os aspectos humanos: economia, psicologia, as artes e – como demonstram o legado de Gandhi e as controvérsias sobre o iodo – a política. Não menos importante do que a história científica, existe uma história social dos elementos.

O melhor local para rastrear essa história é a Europa, começando por um país que era apenas um peão diante dos poderes coloniais na Índia de Gandhi. Como num palco de teatro mambembe, a Polônia já foi chamada de “país sobre rodas”, por conta de todas as suas entradas e saídas no palco mundial. Os impérios ao redor da Polônia – a Rússia, a Áustria, a Hungria, a Prússia, a Alemanha – travaram, durante muito tempo, escaramuças nesse território plano e indefeso, revezando-se politicamente na partilha desse “parque de diversões de Deus”. Se você escolher aleatoriamente um mapa de qualquer ano durante os cinco séculos passados, são boas as probabilidades de que Polska (a Polônia) não esteja presente.

A propósito, a Polônia não existia quando uma das mais ilustres polonesas de todos os tempos, Marie Skłodowska, nasceu em Varsóvia, em 1867, na época em que Mendeleiev estava criando suas grandes tabelas. A Rússia havia absorvido Varsóvia quatro anos antes, depois de uma fracassada revolta (como acontecia com a maioria das revoltas polonesas) pela independência. A Rússia czarista tinha uma visão retrógrada a respeito da educação das mulheres, por isso a jovem Marie foi ensinada pelo próprio pai. Ela demonstrou aptidão para a ciência já adolescente, mas também se uniu a grupos políticos imediatistas e promoveu agitações pela causa da independência. Depois de fazer manifestações demais contra as pessoas erradas, Skłodowska achou mais prudente se mudar para outro grande centro cultural da Polônia, a Cracóvia (que na época, suspiro, pertencia à Áustria). Mas nem assim conseguiu o treinamento científico que buscava. Finalmente Marie se mudou para a Sorbonne, na longínqua Paris. Ela pretendia voltar à sua terra natal depois de obter seu ph.D., mas acabou se apaixonando por Pierre Curie e permaneceu na França.

Nos anos 1890, Marie e Pierre Curie deram início ao que talvez tenha sido a mais fecunda colaboração na história da ciência. A radioatividade era o mais novo e promissor campo de estudos da época, e o trabalho de Marie com o urânio, o mais pesado elemento natural, propiciou uma primeira revelação crucial: sua química era separada de sua física.



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